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Parem o Mundo

Profanity Positively Forbidden — Shut Up or Get OUT


Conto - Faroleiro

Vuurtoren aan de kust van Zeeland

Eu sou o faroleiro do belo rio entre a terra e o ar por onde passam as barcas cheias de almas, algumas perdidas, outras não.

São milhares de barcas que vão e vem durante toda noite, e sei o nome de todos os pilotos, conheço todos eles desde quando o mundo tem gente com alma para transportar. As barcas são todas iguais em tamanho, só variam nas cores e adornos que cada piloto, nesses milhares de anos, foram acrescentando para caracterizar seu instrumento de trabalho.

Os mais sádicos colocam enfeites grotescos para amedrontar mais ainda os já aterrorizados passageiros, alguns mais criativos até se fantasiam para tentar se distrair perversamente de algo que durante tanto tempo pode se tornar monótono.

Mesmo sendo iguais em tamanho as barcas não levam sempre a mesma quantidade de almas aflitas e assustadas. Em umas vejo um pouco mais de 10 pessoas e em outras quase 10 mil, isso é normal. O número sempre varia muito porque as barcas pegam uma leva de gente e zarpam não importando muito o tamanho da turma, o negócio deles é levar, o resto é comigo.

Após tanto tempo ainda não entendi porque tenho trabalho dobrado no mês de dezembro, os condutores das barcas levam sua brincadeira ao limite do suportável, muitos dos passageiros até se jogam das barcas de tanto desespero. Esse é um comportamento inútil já que de forma mágica eles voltam à barca antes de tocarem na água do rio, o que só aumenta seu pavor.

Do alto onde estou vejo tudo, não preciso de nenhum instrumento de aumento para ver ao longe, tenho essa habilidade desde que lembro que existo e isso foi o que me fez apto ao cargo. E então, lá do alto, lá de bem longe percebo alguns passageiros mais calmos, eles estão mais curiosos do que assustados e já sei o que fazer com esses.

Para que você possa ter uma idéia, em barcas com 15 mil deles consigo ver cinco ou sete dos mais calmos, o resto da turma se comporta feito loucos, amaldiçoam o barco, o condutor e fazem gestos até para o farol, ou para mim. Mesmo que não me vejam sabem que estou lá, sabem que eu sei o que estão fazendo, eles sabem, sempre souberam.

Quem não sabe e nem me nota são os mais tranquilos, nunca entendi isso, e durante toda a travessia eles nem desconfiam da minha presença, podem ver o farol mas não ligam para ele. Mesmo que o trajeto dure anos eles se reúnem sempre em pequenos grupos e se colocam na proa da barca, se isolam dos outros lhes dando as costas.

Nem todas as travessias duram anos, esse tempo varia tanto quanto o número de passageiros, algumas barcas chegam a mim em poucas horas e isso facilita meu trabalho. Já pude ver barcas levarem 60 anos para percorrer o caminho, um pouco é culpa do maldito do piloto e um pouco também é culpa dos passageiros que instalam um verdadeiro caos na barca, sabotam as velas, quebram o timão e tentam em vão assassinar o capitão que mesmo com a cabeça fora do pescoço reaparece (mágica de novo!) atrás do timão em perfeito estado e funcionando, as velas agora funcionam normalmente presas pelas cordas antes cortadas.

Só que mesmo sendo tudo isso tão mágico o tempo de trajeto aumenta, não é uma punição, só é assim e não sei explicar os motivos disso, não foi eu quem fiz assim, imagino que seja porque aqui o tempo existe e não existe, um dia parece demorar anos e um mês passa voando. É bem curioso na verdade, e para reduzir o tormento do tempo que não passa eu jogo a luz do farol sobre as barcas onde reina o terror, a luz os deixa desconcertados, não sei o que pensam sobre quem pode ser jogando a luz, e de tão desconcertados param a bagunça como crianças arteiras surpreendidas, não sei mesmo o que eles pensam, só sei que fingem que não estavam fazendo nada demais.

Os mais calmos ficam mais felizes, talvez não felizes, mais confiantes e determinados a continuar como estão: quietos, unidos. Deixo a luz sobre eles mais um pouco, não me importa e nem me custa nada, só facilita meu trabalho, é isso que me importa. A esperança deles não me interessa.

E cada uma dessas barcas, algumas que até me passaram despercebidas, cada uma a seu tempo vai chegando perto do farol, a uns poucos quilômetros de mim as barcas baixam suas âncoras e esperam eu sinalizar, coloco minha luz sobre eles e já sei separar uns dos outros. É ai que começa meu trabalho de verdade, é o momento de eu mandar o bando de loucos para onde eles devem ir o que só aumenta sua aflição e loucura.

Quanto aos mais tranqüilos e pacíficos mando eles de volta ao porto para subir em outra barca e fazer a travessia novamente, o que fazem educadamente e sem reclamar. O motivo de manda-los de volta não sei explicar, esse é o meu trabalho, jogar a luz sobre eles e mandá-los de volta.

(Creative Commons License photo credit: Marcel030NL)

Fingal Lighthouse
Creative Commons License photo credit: s.westhead (Simon)

(Fiquei 5 dias viajando uns tempos atrás, um dia acordei e escrevi isso. Sem planejamento algum e sem coletar idéias de lugar algum, me veio completo na mente, só acertei os erros e estou postando. Escrever contos sempre me fez mal. Eu tinha alguns em algum lugar que não encontro mais, deve ser sorte :) É completamente experimental e sinto necessidade em publicar. Espero que mais desses apareçam)

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Comentários:

  1. Santaum |

    Sensacional, sensacional!!!!! Parabéns pela postagem.

  2. Carlos Magno |

    Evandro:

    É sempre bom escrever contos, ativa-nos a imaginação e nos faz desenvolver assuntos que não sabíamos que sabíamos. Como ninguém é perfeito faço isso também.

    Seu interessante tema lembrou-me da mitologia grega e egípcia, quando o barqueiro Caronte, filho de Erebo (Inferno) e da Noite carregava as almas dos mortos pelas águas negras do rio da Vida e da Morte.

    As almas eram obrigadas a pagar uma moeda ao barqueiro Caronte, motivo pelo qual os parentes costumavam colocar uma moeda debaixo da lingua do morto.

    Quero ler o Conto II.

    Abs.

  3. Toninho Moura |

    Tarefa nobre a sua, a de encaminhar as almas das pessoas.
    Quando a minha passar por você, por favor, mande-a para um lugar cheio de almas de mulheres gostosas!
    Braços!

  4. Thera Fajyn |

    belo conto
    até o próximo, ou não se te faz mal…

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