Educação, um breve resumo do que penso
Para falar sobre educação é preciso cuidado, principalmente em época de eleição onde o uso da palavra é feito indiscriminadamente: “vou dar mais educação!” e o povo nos comícios grita “êêêêêêêêêêê” quando na verdade poucos são os que realmente sabem do que se trata.
Da minha parte também não sei se sei – talvez ninguém saiba – tudo sobre educação, mas como passei quase metade da minha vida trabalhando com isso me sinto no direito de tentar quebrar alguns mitos sobre pessoas que dizem entender sobre educação. Não é tão confuso como parece.
O meu trabalho com educação já não existe mais, só que aquilo fica dentro do corpo, corre na veia, contamina o DNA da gente ainda mais que nasci numa família de educadores. É estranho (desconfortável?) falar isso porque uma boa parte das pessoas não acredita ser possível se dedicar a educação em uma escola particular já que donos de escolas são um grande bando de mercenários. Os empresários da educação, que horror!
Esses seres, os empresários, existem de fato e não são mesmo educadores, mas tem uma boa parte que é educador sim!
A dificuldade para entender que existe aquele que ama a educação e ganha dinheiro (não tanto quanto pensam) com isso vem de um comportamento caipira e de coitadinho do brasileiro, essa sensação de que o governo tem que dar educação de qualidade gratuita para toda sociedade. Não sei bem se a culpa é da nossa colonização, da educação católica, culpa do clima quente ou se tudo junto como mostra essa palestra sobre comportamento, o fato é que esperamos sempre por um Salvador que venha nos amparar, nos alimentar, nos educar e fazer por nós o que nós deveríamos fazer.
Sei o que está pensando e concordo com você: o governo deve sim dar educação para todos, de qualidade e gratuita. Concordo! Mas até ser possível no mundo real as pessoas com maior renda recorrem ao ensino privado, é natural! Então vamos acabar com esse mito que escolares ou faculdades particulares são fábricas de diplomas criadas por porcos capitalistas e toda essa conversa tão 1982… alí são criados empregos e pessoas são educadas de verdade! (Sei que existem péssimas universidades/faculdades particulares. Não é meu assunto no momento)
O que não é natural é todo mundo achar que entende de educação só porque paga uma mensalidade, não é assim não. Só quem vive lá dentro, o dia todo, sabendo de cada detalhe da vida de todo o conjunto de pessoas envolvidas naquele contexto sabe de verdade o que é educação.
- Primeiro, educação não é um método X ou Y que aplicado de forma W resulta em Z. Isso é conversa mole de intelectual de educação que nunca pisou numa escola, esqueçam disso. Todos os métodos são válidos quando aplicados com carinho, respeito e harmonia. Fazer debates filosóficos sobre isso é uma grande perda de tempo dentro de uma escola porque esse tipo de debate deveria ficar dentro dos círculos de estudo e só sair para a rua quando puder ser compreendido, do contrário, só causa confusão.
Nunca me esqueço da GRANDE CONFUSÃO quando surgiu Emília Ferreiro, que foi ligada ao construtivismo que era ligado a Piaget e que bateu de frente com o que se chamava “educação tradicional”.
Hoje sabemos que a criança tem um papel muito importante no seu aprendizado, mas na época o debate saiu das mãos de especialistas como Ferreiro e Piaget e ganhou os corredores das escolas, era o caos… e do nada todo mundo entendia de educação só por ler um único artigo numa revista semanal.
- Segundo, pai, mãe ou qualquer outro responsável pelo aluno não entende de educação! Professor também não entende de educação, dar aula ou pagar a escola para o filho não faz de ninguém um mestre em educação.
Antes de xingar, espera eu explicar primeiro…
Tudo numa escola, tudo em educação, está dentro de um contexto muito maior do que nosso próprio umbigo. Uma criança que vai com fome para a aula tem um tipo de problema, outra que vai para a escola após presenciar uma violenta briga em casa tem outro tipo problema. Numa família onde alguém está doente tem algum estudante sendo afetado por isso, outro tipo de problema: o medo da morte de alguém que se ama muito.
Da mesma forma que um estudante cujo responsável perdeu o emprego, ou está em dificuldades financeiras também tem um problema, ou então vejamos uma criança que sofre algum tipo de Bullying (palavra da moda!) na escola e fica calada, sem contar para ninguém: outro problema.
O mesmo acontece com os professores. Veja só, é difícil acreditar… mas professores têm famílias, sabia disso? Um professor É uma pessoa, sendo assim eles enfrentam de tudo também: doença na família, dificuldades financeiras (isso é até normal infelizmente), problemas conjugais, problema com os filhos, viu? Até filhos eles têm!
Estou brincando assim porque me lembro da cobrança dos pais com professores. Não sei, mas acho que tem gente que pensa que professor é algum tipo de robô que deve sorrir todo dia e não é assim.
Viu como tudo está dentro de um grande contexto, bem complexo e interligado por detalhes que muitas vezes passam despercebidos? E esses detalhes não podem ser esquecidos porque educar não é um processo mecânico como uma fábrica de carros, onde no lugar do carro os alunos são colocados numa esteira e o conhecimento é inserido em seus cérebros. Aliás educar começa dentro de casa que é onde a criança passa a maior parte do tempo, ou estou falando alguma asneira?
A grande lição que temos que tirar disso tudo é que a escola é um ser vivo composto por centenas, até milhares de seres individuais com suas particularidades. Pense numa grande teia de aranha onde cada pontinho se liga a outro ponto e as linhas são criadas formando conexões entre todos esses pontos formando uma estrutura. Cada ponto é um indivíduo. Essa linha que liga cada pessoa é muito sensível e interdependente onde a estrutura toda depende de cada ponto, por menor que pareça.
E esses pontinhos somos eu, você, meu filho, seu filho, o professor, a moça que limpa o banheiro da escola, o diretor, o coordenador do curso, etc. Sendo assim, a estrutura que agora é um grande ser vivo precisa ser observado e respeitado da mesma forma que fazemos de forma individual, ou seja, com cautela, com carinho (ou amor!) e com muito respeito.
Crédito da foto:
photo credit: bortescristian
PS: Comecei o post falando sobre política e termino deixando um link muito interessante: http://www.euvotonaeducacao.org.br/ – É bem simples participar, acesse e contribua!
9 Responses to Educação, um breve resumo do que penso
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Evandro,
Parabéns pelo excelente artigo. Discutir educação não é nada fácil, nosso país está repleto de especialistas, no boteco então…
Fato é que sua discussão é válida e se alinha com o que penso do assunto. Educação está longe de ser uma ciência exata ou processo mecânico. Embora seja clichê, lembrei daquele memorável clipe do Pink Floyd, Another Brick on the Wall (que você já deve estar cansado de ouvir falar). No rock, a melhor crítica que já ouvi e vi sobre o sistema educacional.
Abraços!
Evandro, a pior parte é saber que tem gente que acredita mesmo que entende de educação porque “paga uma mensalidade”.
Concordo com vc:
Gostei muito da ideia da teia!
Pois é Evandro, a educação é nosso calcanhar de Aquiles. Infelizmente, não veremos a solução, pois nossa geração não tem trabalhado para isso.
Braços!
Considero o sistema educacional que nós temos falho demais — e em pontos fundamentais demais — pra ser considerado “bom, mas com falhas e defeitos”. Está mais pra “ruim, com alguma coisa de bom de vez em quando”. O problema é sim a estrutura, e não o investimento. É claro que você está certo quando diz que a educação “não é um processo mecânico como uma fábrica de carros, onde no lugar do carro os alunos são colocados numa esteira e o conhecimento é inserido em seus cérebros”, mas, sinceramente, isso é o que se pretende fazer atualmente. Não estou dizendo que é culpa dos professores atuais que escolheram isso: as coisas simplesmente estão organizadas dessa forma.
Mas, de qualquer forma, o artigo tem pontos muito importantes — desconsiderando debates sobre a educação a priori e simplesmente sobre seu estado atual e a discrepância entre o que ocorre e o que deveria acontecer de acordo com esse modelo — como os pais (e/ou alunos) que se acham os donos da verdade e creem que professores são robôs…
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Gosto tanto da Ideia da Teia que, bem, vc sabe, um dos projetos aos quais estou dedicando boa parto do meu tempo chama-se Teias de Aprendizagem – Rede de Escolas Livres. E parte justamente deste pressuposto: a Escola não é a Escola. Aprendemos em todas nossas relações, em todos nossos encontros com pessoas, com objetos, com eventos da vida. Aprendemos, em intensidade e relevância, muito mais fora da escola, basta fazer uma análise e perguntar a nós mesmos: onde aprendemos a maior parte das coisas que usamos em nosso dia-a-dia, em nosso relacionamento interpessoal?
Sei que minha teia deriva da sua em alguns graus, pois a minha tira o peso da escola (enquanto instituição) e busca criar o que chamamos de cidades educadoras, ou espaços nos quais tudo pode servir de propósito ao aprendizado. É uma linda tarefa, mas que não tem fim. Queria muito te convidar para participar mais ativamente deste projeto, que ainda está incubando. Vamos?
Evandro:
Educar está mesmo num grande contexto. Não é fácil e a teia exemplifica com perfeição.
Gostei muito do seu texto. Parabéns!
Anny.
@PHzul Raphael, discutir Educação além de complicado é um pouco chato porque tem gente que defende um ponto ou outro como defendem religião. Agora a música do Pink Floyd não é nada clichê! Ela é tão moderna quanto há 20 anos (mais né?) :)
@samegui As pessoas compram educação e não conseguem sentir o que estão comprando, ninguém reclama da parcela de 1.000 reais de um carro, já de 500 reais da escola é uma confusão danada.
@Toninho Moura Tem toda razão, só pensamos no agora…
@Peterson – Sim meu caro, entendo perfeitamente você e por isso que nem me animo tanto com discussões, o sistema é assim e sinceramente não vejo nem como nem por onde começar qualquer mudança
@Rafael obrigado pelo comentário! Vou pesquisar sobre seu projeto e te aviso. Agradeço muito o convite!!!!
@Annyllinha Obrigado Anny!
Educação é complicado. No estado, anos de achatamento de salários e professores concursados acabaram com a educação. Os salários baixos acabaram deixando apenas os medíocres e os ‘concursos’ acabaram com qualquer iniciativa de trabalho, ninguem faz nada pq promocao é automatica quando o chefe aposenta e o aumento é a cada 5 anos no quinquenio. Pra acabar ainda tem a licenca premio. Que esmola! Que repugnante.. A ideia de um emprego estavel onde vc nao possa ser mandado embora é o que eu conheço mais proximo da teoria do absurdo. É ridículo. Os chefes de departamento, parecem uns velhos chefe de policia de seriado americano: ficam com a barriga encostada no balcao esperando a aposentadoria. Na direcao entao.. as faculdades tem um bando de lunáticos, uns puxa-sacos e umasmocinhas dadeiras, gente que nunca sai da cadeira pra ver que uma escola, por incrivel que pareca, tem alunos. Eu fico me perguntando como é que é possivel ser chefe de um funcionario que nao quer trabalhar e vc nao possa manda-lo embora?