Entendo ele, quer dizer, um pouco desse mal humor dele. É um espelho velho já, tem uma moldura cafona e alguns marcas que só o longo tempo de vida podem causar e mesmo com esse temperamento azedo ele é bem cordial, talvez seja pelo longo tempo de amizade ou pode ser uma característica própria dele.
Com espelhos estranhos não temos esse relacionamento íntimo, os de restaurantes especialmente são os mais fúteis, passamos rápido por eles… muitos nunca mais veremos e creio que é por isso que eles não costumam falar comigo porque no fundo sabem que estou com pressa e que possivelmente nunca mais nos veremos, então, pra que tentar uma aproximação se é quase certo que teremos uma separação definitiva?
O meu Espelho Cordial já me viu chorar e em silêncio ficou até passar, quando teve a oportunidade de falar só me disse: “Isso também vai passar, lembra como passou das outras vezes?” E isso me conforta demais, essas palavras e toda essa gentileza natural dele.
“Vai passar isso também” eu falo pra ele e no meu pensamento chega um sorriso dele, daqueles sorrisos originais com os dentes todos à mostra, o brilho nos olhos meio que apertados pela mudança facial. Todos identificamos facilmente um sorriso original, verdadeiro…
Uma vez em fúria armei o punho com os dedos cerrados e fiz menção de lhe dar um soco, e me lembro que seu olhar era de surpresa e de tristeza. Então parei!
“Quem você quer atingir meu amigo? Será que sou eu mesmo que toda manhã te acolho com palavras cordiais?”
Meu Espelho Cordial é também sábio e tem uma clareza de pensamento e uma sensatez que desconcertam a gente, que é coisa comum entre os sábios: deixar nós os normais desconcertados ao enxergarmos a verdade.
Só não sei se é a nossa verdade, a deles, ou a que esperávamos encontrar desde o começo. Que importa!, afinal? Isso é só um jogo de palavras, nossa ou dele, conceitos do que é A Verdade, perda de tempo, o que importa mesmo é o efeito dentro da gente.
E agora não sei como terminar esse conto, fui até meu espelho e me perguntei como terminar e com a resposta dele encontrei a saída.
“Quem te disse que terminou?” ele me disse sorrindo.
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Tags: Contos


Gostei!! =] Muito massa e verdadeira essa história da relação com os espelhos. Nunca tinha reparado. É a mesma pessoa que olhamos, mas depende do espelho o “reflexo” é diferente. Foda, cara, foda!! =D
.-= Peterson Espaçoporto´s last blog ..A Nova Acrópole e o Iaido =-.
Legal, obrigado!! Ainda vou afinar ele, é que precisei publicar porque ele tava me consumindo, tem uns que me consomem e até publico eles no “privado” do wordpress me enganando só pra tirar esse peso hauahuahuahua
Estou afinando outros dois e depois publico, conto com sua opinião :)