Todos nós vamos para Samarra

Brian de Palma fez um filme em formato de documentário contando a história dos soldados americanos que estupraram e assassinaram uma menina de 14 anos e sua família, o caso ficou conhecido como o incidente de Mahmudiyah que é o nome da região ao sul de Bagdá também carinhosamente chamada de Triângulo da Morte. Residem nessa área cerca de 150.000 pessoas de maioria sunita, é bastante gente se você pensar em como é a situação atual.

Saddam era sunita, os americanos mataram Saddam e o resto você já sabe.

No Iraque não se sabe quem é o inimigo, é uma guerra estranha, o inimigo não tem farda de outra cor ou símbolo, nem idade mínima para lutar, eles estão esperando um momento para atacar e matar pelo menos mais 1 soldado americano mesmo que isso lhe custe a vida.

O nome do filme é Redacted, De Palma ganhou o Leão de Prata como melhor diretor no festival de Veneza, talvez mais pelo tema e abordagem, não sei dizer, o que sei é que o filme é perturbador, faz a gente perder um tempo da vida pensando.

A história da garota de 14 anos Abeer Qasim Hamza choca muito e além dela foram assassinados também sua mãe de 34, o pai de 45 e a irmãzinha, uma garotinha de só 5 anos de idade.

Os culpados tiveram penas brandas pelo crime que cometeram. Mas o problema não é só esse, o grande problema mesmo é uma guerra maluca que ainda vai matar muito inocente.

Essa região de Mahmudiyah possui várias barreiras de checagem para limitar o que se chama zona verde em Bagdá, o local mais seguro por lá. Em 24 meses, 2.000 iraquianos foram mortos nessas barreiras e desse número somente 60 foram considerados insurgentes, o restante é de civis inocentes que morreram e nunca soldado algum foi acusado.

Saddam era religioso, Bush também é religioso e nenhum deles segue os exemplos das religiões que dizem seguir.

Da mesma forma soldados americanos que carregam a cruz de Cristo no peito matam inocentes e iraquianos gritam Alá Akbar (Deus é Grande) enquanto explodem um carro em pedaços junto com outras pessoas. Nenhum lado poupa civis, nenhum.

Ninguém que faz algo assim segue religião alguma. Enquanto isso os religiosos israelenses estrangulam os palestinos que também se dizem muito religiosos.

Será que o problema é a religião mesmo? Ou seria a forma como se usa e se interpreta ela para benefício próprio?

Guerras são feitas em busca de poder, idealismo e supremacia religiosa por um bando de gente vaidosa que quer impor ao outro com o uso da força a sua forma de pensar!

Todos acham que estão certos, e está começando a ficar raro encontrar entre os católicos, judeus, evangélicos, espíritas, ateus e etc etc etc, pessoas que não pensem que a sua verdade é que precisa imperar sobre qualquer outra.

“Você não pensa como eu? Então vou empurrar pela sua goela abaixo!” – isso é o que me parece mais comum hoje.

É tudo simples, mas como somos vaidosos gostamos de complicar, o amor é o que importa, e a palavra “amor” é o respeito ao seu semelhante, é simplesmente não lhe desejar e nem lhe causar nenhum mal, só isso!

Não é preciso muitos ISMOS e nem ser PhD em filosofia ou teologia para se entender algo tão simples como “beber água na concha da mão”. (essa expressão é do Mario Quintana)

A grande verdade que ninguém pode negar meu amigo é que todos nós vamos para Samarra, a questão é: vamos chegar lá fedendo a podridão e sangue ou relativamente limpos?

Encontro em Samarra – W. Somerset Maugham (esse texto foi colocado no filme de Brian de Palma de forma muito inteligente)

Havia um mercador em Bagdá que um dia enviou seu servo ao mercado para comprar provisões e em pouco tempo o servo estava de volta, branco e tremendo, e disse, Mestre, agora mesmo quando eu estava no mercado fui empurrado por uma mulher na multidão e quando me virei eu vi, foi a Morte que esbarrou em mim. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador, agora, empreste-me seu cavalo, eu vou cavalgar para fora dessa cidade e evitar o meu destino. Irei até Samarra e a Morte não me econtrará. O mercador então emprestou o cavalo, e o servo montou e batendo com força na virilha do animal cavalgou com o máximo de rapidez possível. Então o mercador foi ao mercado e me viu parada no meio da multidão e vindo até mim me disse, Porque você fez um gesto ameaçador ao meu servo quando o viu essa manhã? Não foi uma ameaça, eu disse, foi um sobressalto de surpresa. Fiquei impressionada de vê-lo em Bagdá quando eu tinha um encontro com ele essa noite em Samarra.

Livre tradução (o original está aqui) de Encontro em Samarra de W. S. Maugham

Washington Post – Nesse artigo você poderá entender um pouco mais sobre essa região.

Vídeo do filme: YouTube

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9 Comments

  1. Alexandre
    Posted 24/01/2008 at 21:48 | Permalink

    Muito bom o texto, embora eu prefira ir pra Passárgada. Brian de Palma deveria ganhar Oscars só de botar o dedo nos filmes, a dica está anotada.

  2. Henrique Artur Wint
    Posted 25/01/2008 at 10:27 | Permalink

    Ando precisando ver filmes. Quanto a Samarra, fique perdido… acontece.
    Ademais, o texto é bem interessante.

  3. Fernando Cury
    Posted 25/01/2008 at 23:44 | Permalink

    Boa Evandrão!!!

    Velho… as religiões têm problemas com as verdades. As verdades são o real problema, pois são relativas. A verdade não existe. Na minha opinião, a PAZ é a verdade que todos deveriam seguir, e só chegaremos nela com tolerancia geral… racial, religiosa e assim por diante.

    Parabéns pelo texto e assunto abordado meu velho! Muito bom!!!

  4. Carlos Magno
    Posted 26/01/2008 at 22:07 | Permalink

    Prezado Evandro:

    Legal seu espírito crítico na pequena resenha de um abominável capítulo da guerra no Iraque. Guerras em si mesmas já são abomináveis, incompreensíveis pelos homens de paz.

    Gostei de você ter citado Somerset Maugham, um de meus preferidos, meio protagonista no filme. Acho que vou reler O Fio da Navalha.

    Deixe eu fazer a minha parte como visitante do blog, agüente ai!

    O homem não passa de um elemento sócio-político-religioso — quando se diz religioso. Veja que coloquei “religioso” no final. O grande problema não são as religiões. Um estudo delas só vem demonstrar, com poucas exceções, e nesse caso entra o Islã, que a maioria fala quase da mesma maneira de um Deus Onipotente e de “Deus-em-três”. Os ensinamentos são essencialmente os mesmos. Claro, construtivos.

    O diabo mesmo é o homem, sem a menor dúvida. As massas são volúveis na fé, e os poderosos governantes sabem disso, então as religiões raciais ou nacionais entram também como justificativas para guerras, pois o deus de um povo é maior que o deus do outro.

    Nesse triste aspecto ainda estamos na antiguidade, – ou mais recuados ainda, – e vemos que a cabeça do homem é mais dura do que Deus imaginava. Pois é, quem mandou Ele inventar o homem, agora segura! Mas será que o inventou à Sua própria imagem? Eu diria que as escrituras quiseram referir-se à Sua própria sombra!

    Com relação ao estupro e assassinato da família sunita, deve ter havido outros que não foram detectados ou que foram abafados, pois o homem quando em situações de guerra perde muito de seus condicionamentos sociais, até de seu “quantum” religioso não verdadeiramente cuidado, e o diabo que nele jazia encoberto irrompe fortemente. Tanto faz seja ele americano, xiita, sunita ou de qualquer outra raça; a proporção psicológica dos fatos em sua mente voa para longe. E volta a ser o animal-homem, ou o diabo como o estamos tratando, na sua conseqüente expressão.

    Ainda mais ao usar drogas para conseguir suportar a torturante expectativa da morte!

    Para terminar, dou-lhe outro exemplo sobre animalidade humana fora dos cenários de guerra: acidente de avião em lugar agreste ou deserto, em que se salvam passageiros. Não demora e o primeiro e mais forte dos instintos grita-lhes no íntimo: sobrevivência!!! E segundo relatos verídicos, alguns, senão todos, se transformaram em canibais!

    Ainda bem que sou vegetariano.

    Desculpe o tamanho do comment! Abraços.

  5. Evandro
    Posted 27/01/2008 at 15:06 | Permalink

    Alexandre: realmente, de Palma é ótimo, tudo que ele dirige tem algo especial, mesmo que a gente não saiba bem o que é….

    Henrique: Obrigado pela visita! Espero que volte sempre.

    Pandão: como sempre você entendeu perfeitamente o que escrevi! ;)

    Carlos: O espaço aqui é para isso mesmo, escrever! Aliás entrei no seu blog e gostei muito mesmo, você escreve muito bem!

    Quanto ao incidente em questão só tomou conhecimento porque em represália os sunitas arrancaram a cabeça de 2 americanos e publicaram que era em resposta ao ato… mesmo que não for a verdade, a coisa veio a tona devido esses seqüestros a porque um dos soldados falou. Claro que muitos outros devem acontecer.
    O Fio da Navalha… nem tem o que falar, reler ele é sempre melhor, acredite!

  6. Carlos Magno
    Posted 27/01/2008 at 20:28 | Permalink

    Evandro:

    Obrigado pelo incentivo.

    Sempre que um tema aqui postado assanhe e balance os macaquinhos de meu “cogito logo existo”, darei pitacos com prazer.

    Por esses dias estarei lutando para oferecer meu original à editores. A luta é feia, mas sou paciente.
    Abraços.

  7. maria jose das graças caramori
    Posted 08/06/2012 at 12:23 | Permalink

    OBRIGADA AO MEU MAIS NOVO EM TEMPO, MAS VELHO EM AMIZADE ÉLA COMUNHÃO DE IDEAIS QUE ME LEVOU Á PÉSQUISAR O EPSODIO “CAVALO DE SAMARRA” E ME DEPARAR COM ESTA PEROLA FILOSOFIA, QUE EU ESCREVERIA SE TIVESSE ESTE CONHECIMENTO DE UMA GUERRA QUE NUNCA ENTENDI!

  8. Posted 08/06/2012 at 13:52 | Permalink

    A história de Samarra não é minha, é de Somerset Maugham e o que fiz foi transcrever o que estava no filme.

  9. maria jose das graças caramori
    Posted 08/06/2012 at 19:33 | Permalink

    olá, desculpe, nao me fiz entender. O texto bibliblico, se não me falha a memoria, nao foi objeto de elogio e sim o modo como foi enfocado,
    complementando um discurso de um grande amigo meu que tambem o mencionou.Em tempo não quero nada, não vendo nada, sou apenas uma reles escritora, me intitulo, sem eira nem beira!Grata pela nobre atenção. Gostei muito de seu texto, embora, confesso, nao saiba nada de sua obra, mas com absoluta certeza vou saber!.Saudações Nietzschanas

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